A conferência de abertura trouxe aspectos políticos, sociais que abordaram a formação do povo brasileiro e sua atual conjuntura política

O 3º Fórum Brasileiro de Direitos Humanos e Saúde Mental deu início oficial às suas atividades nessa quarta-feira, 28, com a conferência da filósofa, escritora e artista Márcia Tiburi, que abordou o tema “Democracia, Saúde Mental e violação de Direitos: consequências humanas”. Na ocasião, Márcia falou sobre a possibilidade de gerar diálogos. Para a autora do livro Como conversar com um fascista, “não estamos disponíveis para a alteridade, para escutar o outro. Se tivéssemos um ambiente de escuta e de diálogo no Brasil, talvez estivéssemos livres da situação em que vivemos neste momento”. A hipótese levantada pela escritora para pensar o Brasil contemporâneo é de que vivemos “um quadro coletivo de delírio”.

Para justificar esse argumento, a autora destacou frases ditas por atores políticos brasileiros: “não temos provas, mas temos convicção”, do procurador Deltan Dallagnol; e “como Deus me colocou aqui?”, dita por Michel Temer. Outro exemplo, esse no campo da Saúde Mental, foram as internações compulsórias ocorridas na Cracolândia, em São Paulo, este ano. A medida resultou numa ação policial de internação forçada de usuários de drogas. Para Tiburi, esses exemplos são delírios coletivos promovidos por políticos brasileiros. “O congresso nacional é o próprio delírio coletivo, você tira por exemplo aquele 17 de abril quando aconteceu a votação do impeachment da Dilma”, destaca.

Ao longo de sua fala, a escritora fez provocações e apresentou as estruturas que justificam sua ideia central de um delírio coletivo. Seu primeiro argumento é da loucura codificada, de que criamos códigos com os quais encobrimos e transformamos a realidade. Usou como base o pensamento de Achille Mbembe, professor de História e Ciência Política nos Estados Unidos e África do Sul, autor da obra “Crítica da razão negra”. Segundo Mbembe, essa loucura codificada estaria associada a redução do ser humano a uma questão de aparência, de pele ou de cor. Assim, o negro e a raça são objeto de um delírio que sustentou a escravidão. “Se pensarmos na estrutura das desigualdades, a desigualdade social, sexual, regional, de gênero, doméstica, é isso que acobertamos com essa discursividade delirante, com esse discurso pronto, com esses clichês, com o preconceito e o ódio”.

Ao final da palestra, a filósofa questionou o público qual seria a saída para o delírio. De acordo com ela, a solução deveria ser a produção de ações políticas e simbólicas, através da ocupação dos espaços de poder. Para a palestrante, essa mudança pode ter acontecido hoje, através do Fórum. “Nós devemos ocupar esses espaços com outras propostas. Não tem outro jeito, só quebraremos o delírio trocando a cena”, finaliza.

 

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