Rostos pintados, roupas coloridas, chapéus, narizes vermelhos. O som que vem dos quartos são conversas animadas, piadas e risadas. Pode não parecer, mas essa cena acontece regularmente no Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina. O Terapeutas da Alegria é um projeto do Departamento de Saúde Pública que leva para os pacientes um momento de leveza e de escape.

O projeto começou na Unisul, na cidade de Tubarão, por iniciativa de alunos de medicina. Uma aluna do professor Walter Ferreira no Mestrado em Saúde Coletiva havia trabalhado com esse projeto piloto, e surgiu então a proposta de trazê-lo para Florianópolis, sob sua coordenação. O projeto se efetivou em 2007.

Os participantes visitam pessoas internadas nos hospitais e se dividem em grupos de quatro a seis terapeutas. O mais experiente atua como coordenador. Cada grupo faz uma visita semanal, geralmente no final da tarde, quando o movimento das enfermarias é menor. Lá interagem com as pessoas internadas e familiares. A dinâmica de cada visita varia de acordo com as condições dos pacientes e com a vontade deles de interagir. Mesmo com um repertório de atividades, esquetes, brincadeiras e formas artísticas, tudo depende das disposição dos pacientes – afinal, a ideia é priorizar o bem-estar deles. O coordenador Walter Ferreira afirma que o projeto sempre busca “levar alegria, proporcionar emoções positivas, tentando ajudar na superação deste momento tão difícil que é o da internação no hospital”.

A arte aplicada à saúde faz parte da trajetória profissional de Ferreira desde a década de 1980, quando trabalhou com o Teatro do Oprimido. “Acredito que a criatividade, a busca do autoconhecimento e a humanização nas relações pessoais e profissionais são absolutamente necessários para uma vida melhor tanto na perspectiva pessoal, quanto na profissional, bem como na promoção e no cuidado em geral da saúde coletiva”, comenta o professor.

Foi essa busca que levou a estudante de biologia Eliza Oliveira a entrar no Núcleo de Humanização, Arte e Saúde (Nuhas). “Eu não tinha muita noção de como era o projeto quando me inscrevi, não sabia como funcionava, mas mesmo assim comecei a participar para conhecer. E então descobri que era muito mais do que eu esperava. Que o projeto não ajuda só aos outros, de fora, mas ajuda também os próprios participantes”. A personagem criada por Elisa se chama Muleka, uma menina de 10 anos, que traz a inocência e a curiosidade da criança. “Eu criei essa personagem devido a uma paixão enorme que tenho por crianças e uma vontade que às vezes surge de ser criança para sempre. Infelizmente a gente tem que crescer e começar a fazer as coisas sérias e chatas de adultos, mas com a Muleka eu consigo manter um espirito infantil, inocente e brincalhão, que não enxerga a maldade dos outros e que pula, brinca e se diverte muito com qualquer pequena coisa”.

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Monique Rocha também sentiu esse efeito na própria vida depois que ingressou, em 2009, no Terapeutas da Alegria. Ela já havia participado desse tipo de atividade em creches, orfanatos e instituições de pessoas com deficiência em São Paulo, onde morava. A primeira vez em que atuou em hospitais foi em Florianópolis e afirma que participar de um projeto de humanização foi importante para sua formação, mas mais do que isso, o projeto é importante para qualquer área, pois aprendeu que a humanização está em todas as atividades do seu cotidiano. “Desde o relacionamento com os colegas de trabalho até o contato com pessoas que estão em sua rotina. Nós acabamos aprendendo que cada pessoa tem a sua individualidade, e nós temos que respeitá-la”.

Importância na graduação 
A visão do coordenador Walter Ferreira é de que esse é o tipo de projeto que marca o princípio da indissociabilidade entre extensão, ensino e pesquisa. Pois, para muitos dos estudantes, essa é uma oportunidade de experiência interdisciplinar onde o participante descobre maneiras de se ver uma utilidade prática nas suas ações. O projeto ainda traz autoconfiança e benefícios diretos para o próprio participante, que apresentam melhora em muitas áreas de sua atuação pessoal e profissional.

“Tem sido um projeto reconhecido na comunidade e principalmente pelas pessoas atendidas e pelos profissionais de saúde que trabalham nos locais visitados. Isso traz prestígio e dá uma perspectiva interessante para a Universidade, abrindo diálogos sobre novas e diferentes formas de atuar como profissional e novas e diferentes maneiras de ampliar o conhecimento, o que é uma função essencial de uma verdadeira Universidade” afirma Ferreira.

Saúde humanizada
Os efeitos do Terapeutas da Alegria ultrapassa também as cercas da Universidade e possui efeito direto na Saúde Pública.
Gustavo Machado, psicólogo que também já participou do projeto na UFSC, acredita que ele traz para a saúde coletiva a garantia do pensamento humanizado sobre o que pode ser saúde. “Quando estamos na graduação, acaba sendo imerso numa possibilidade prática que é patologizante e restrita. Mas com os Terapeutas da Alegria é possível levar cor a lugares marcados, infelizmente, pela rigidez do olhar médico-centrado”. Ele afirma que o sujeito a quem a saúde coletiva assiste é plural e com demandas muito singulares. “O nariz vermelho traz isso, a singularidade, ele é a potencialização da ideia da garantia de linha de cuidado, indo além das necessidades biológicas e chegando na procura por um olhar amigo e um sorriso”. Mais do que isso, o projeto do Departamento de Saúde Pública também traça um novo perfil de SUS. Machado acredita que “projetos assim legitimam a ideia de que ser profissional da saúde é também abraçar, cuidar e se importar com o outro que confia ao SUS parte da sua qualidade de vida”.

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